não há de ser nada demais,
dizem,
talvez um presságio do outono
inverno distante
vento
algum presságio ou medo que seja.
não há de ser nada demais,
dizem,
o céu está azul
e a vida segue como em todos os dias.





assim, embaçado, difícil, sem previsões além do que a vista alcança. ele não assusta nem acalma, é como se não existisse, mas, sempre à espreita, cobra seu preço. e nos dá a impressão de que a vida é isso que vejo, a decadência, as seis horas, batendo cartão, longas viagens no ônibus, curtas no trem, sono fora de hora e cochilos no começo da noite. madrugadas acordado e aquele banho frio de manhã. você coloca a blusa e vem o sol, quando tira, o vento te gela. a grana cai no banco e vai embora sem passar por tuas mãos. contas e mais contas que nem deixam o suficiente praquela breja, praquele fim de semana com os amigos ou com aquela garota que conheceste outro dia. vivendo de migalhas e minutos, deixando tudo que resta para pagar a fatura de teus dias, sem fiado, sem desconto para pagamentos à vista. parcelamento dolorido. saudade das paixões que rejeitei, das ligações que não retornei, dos olhares que ignorei. vontade de rever cada alma perdida, de sofrer de novo cada amorzinho juvenil, de chorar de novo cada decepção e sentir mais uma vez o primeiro beijo, o sexo inocente. nostalgia. e a vontade de sair pra qualquer lugar e tentar curtir um presente que, tão insosso, machuca. aperta o peito. pegar os trocados que sobram, o cartão, o talão de cheques. sair e voltar sabe-se-lá quando. ir para o puteiro mais barato e para o mais caro. beber a cerveja, o uísque. namorar, prometer casamento, fugir. fumar um charuto cubano, um cigarro de menta e aquele marlboro amargo. dirigir na madrugada por todas as pistas e conhecer as cidades, sem ligar para a gasolina.


ainda não consegui entender como pude escrever tantas vezes neste e em outros blos sobre amores e ideiais. até o dia de hoje, só pude desamores e idéias sem futuro. dezenove anos. não que eu sinta a falta de qualquer coisa exceto poder sentar na cadeira humilde, copo de cerveja na mão, roda de amigos, olhar fixo nos horizontes perdidos. ninguém pode querer muito mais que isso nesta vida. subir escadas não é mais para mim. com ou sem bengalas, sempre me apoiei no corrimão. olha a luz lá em cima. eu espero que construam escadas rolantes em toda extensão do universo. passou a fase em que as noites de verão eram frias e que o inverno não adiantava edredons e estourava termômetros. o barco hoje vai sozinho, à deriva. nos contentamos em viver a boa vida, brindar repetidamente e esperar que o leme sem comando nos desvie de obstáculos. ah, a luz, um dia eu alcanço. se achar preciso. o que tem de tão ruim nas sombras? nesse escurinho doce, fresco? pega um copo e senta. olha que bonito. eu amo isso. só quero sentar e olhar as ondas se arrebentando em si mesmas e esperar que o mundo acabe em guerras ou tornados ou aquecimento global. porque meu mundo parou na distância dos horizontes.
aperta um pouco quando a gente fecha o último botão. e também nunca fica totalmente arrumada. ela sempre parece um pouco torta, fora de lugar. mas é o uniforme que remunera o suor e o desconforto. você entende a libertade por detrás dessa prisão, eu tenho certeza disso. cada segundo de vôo é pago com outro segundo em que nos arrastamos. a dualidade está sempre presente neste céu-inferno em que vivemos nossas vidas. nesses horizontes perdidos que contemplamos em tardes de cerveja na mesa e olhar vago. conversas descompromissadas e tão fúteis quanto as de telenovelas que adoramos esculachar.

